Quinta-feira, 16 de Fevereiro de 2012

Miguel Macedo, director do Dinheiro Vivo, um apêndice da Controlinveste,

holding do DN, JN, TVSport, e mais alguma coisa, vem hoje perorar sobre «moralismos com todos», onde pretende mostrar as razões pelas quais «nós, portugueses, somos apenas mais pobres do que os outros» e, por causa disso, «estarmos mais vergados ao peso das dívidas». Para levar a água ao seu moinho, Macedo serve-se de um estudo de 1928, onde é relatado que os «aborígenes tinham sempre muita pressa em satisfazer os seus impulsos primários. Por exemplo, quando queriam defecar, não esperavam -- fazim logo ali o que tinham de fazer». Macedo refere a analogia feita pelo autor do estudo com «as crianças que chegam cada vez mais em grande número à pré-primária sem saber controlar os seus impulsos mais básicos e, por isso, usam fraldas cada vez mais tarde». E prossegue: «adiar o prazer imediato em nome de um objectivo maior, dificil e demorado não é coisa que lhes pareça muito sexy». E Macedo adianta que «o resultado está à vista»: [...] «fracasso escolar, cultura do facilitismo, exigências desmedidas, incapacidade para autocrítica e uma dívida pública e privada galopante». Na opinião de Miguel Macedo, tudo isto se deve a hábitos de infância, ou seja, por querer defecar em qualquer lado, em vez de esperar pela hora e local conveniente. Caramba! Que grande filósofo me saiu este Macedo, que eu tinha como bom analista financeiro, mas que agora, com esta «análise», veio borrar todo o seu pensamento. Fiquei atordido com a «palração» do Miguel Macedo. Espanta-me a sua erudição antropológica. Desgosta-me o seu desprezo pela cultura aborígene. Esta coisa de ter que botar discurso para «facturar», sempre que o estro não se quer revelar, o melhor será perorar sobre a arte de bem cozinhar arroz de míscaros...

Miguel Macedo, economista, esquece que as pessoas vivem hoje

numa ditadura dos «mercados», que condicionam a cultura, os gostos, as escolhas, e os comportamentos da sociedade de consumo. A cultura,  familiar, tradicional, escolar e comportamental, é pervertida pelo advertising, pela publicidade, pelo apelo ao consumo -- que não deixa espaço nem tempo para o consumidor reflectir. A cultura, a saúde e o «consciente colectivo» foram hipotecados pelos «mercados». A cultura de rua, espontânea, sem cãnones, foi abocanhada pelos «mercados»; a saúde pública, foi capturada pela indústria químico-farmacêutica; e a consciência das pessoas foi pervertida pelo audiovisual. Uns enriquecem a tratar os doentes e enfermos, enquanto outros alimentam a doença inpingindo álcool, tabaco, drogas e anabolizantes. Gasta-se nos cuidados de saúde, mas esquecem-se as «boas práticas» da alimentação, da cultura física e da protecção ambiental. O problema não tem origem nos aborígenes ou nos bebés de fralda descartável. O problema está nas desigualdades sociais, na cultura da consumismo. Este é um bom tema para os sociólogos da nossa praça tratarem, em vez de andarem por aí a falar de pieguices e outros temas de lana caprina, ou da Futebolândia.



publicado por Evaristo Ferreira às 15:33 | link do post | comentar

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